Whisky com Leminski (blog de Kiko Rieser)
   Microcontos do genial Marcelino Freire

À MESA BRANCA

Chegou uma carta do marido. Analfabeto.

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Na mesma cela, dois homens se beijam. Livres.

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Segurou na mão de Deus. / E pregou.

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- Enterra. / Disse a virgem morta. / No seu ouvido.

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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

- Papai tirou o cinto. E não parou por aí.

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TRAVESTI

Tirou a calcinha e vestiu a camisinha.

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Casar os outros era a punheta do padre.

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- Paiiiêêê! Será que eu sou pedófilo?

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E a água virou Coca-Cola.

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Fodia e noite...

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Bebeu todas. E não comeu nenhuma.



Escrito por Kiko Rieser às 15h11
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   Poema do israelense Yehuda Amichai

TURISTAS

Visitas de condolência nos fazem,
sentam-se no Yad Vashen,
ficam sérios junto ao Muro das Lamentações
e riem por trás das pesadas cortinas dos quartos de hotel,

tiram fotos com mortos importantes na tumba de Raquel,
na tumba de Herzl e na Colina das Munições,
choram pelo belo heroísmo de nossos jovens
e desejam a fortaleza de nossas jovens
e penduram sua roupa íntima
para uma secagem rápida
em uma banheira azul e fria.

Certa vez sentei-me numas escadas junto à porta da Torre de Davi e depus as duas pesadas cestas ao meu lado. Havia um grupo de turistas ao redor de um guia e eu lhe servi de ponto de referência. “Estão vendo este homem com as duas cestas? À direita de sua cabeça há um arco da época romana. À direita.” Mas ele está se mexendo, ele está se mexendo! Disse a mim mesmo: A redenção chegaria apenas se lhes dissessem: “Estão vendo aquele arco da época romana? Bem, ele não importa, mas ao lado, um pouco para a esquerda e um pouco abaixo, está sentado um homem que comprou frutas e verduras para os seus.”



Escrito por Kiko Rieser às 14h55
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   AO SOM DE EDITH PIAF

Ela me arrastou pra cama, entre várias almofadas e lençóis sujos espalhados pelo chão, como se a decoração quisesse contar a história das últimas semanas. Eu, já bastante cansado e bêbado o suficiente pra recitar ao léu versos de um poema confessional de Paulo Leminski. Eu, que sobrevivi a todo o caos. Eu, que só queria acabar a noite ouvindo os ruídos intermitentes da noite paulistana entrando pelas frestas corroídas da janela. Eu, arrastado pra cama, num lapso de tempo, num entremeio da madrugada, como quando a música pausa por um segundo pra voltar com baixo e bateria e distorção e porrada. E ela só sussurrava pra mim “hey, baby, take a walk on the wild side”. E me puxava pelos cabelos e me mordia o pescoço, saldando a dívida daqueles anos todos dizendo entre uma cerveja e outra “um dia ainda te pego de jeito”, nas brincadeiras quase pueris de dois semi-amigos ávidos por intensidade (já um pouco descrentes no significado da palavra felicidade). E me beijava como se eu correspondesse, como se houvesse algum ardor possível num resto de noite malograda pela tentativa de entender qualquer coisa que a capacidade humana não permite explicar, estragada por esse desejo pernicioso de ser deus, na falta de qualquer coisa melhor que o homem pra acreditar. Ela me beijava como se fôssemos deuses. Como se fosse um tempo em que fosse possível encontrar algo como deuses no cinema e levá-los pra casa e fazer amor. Me olhava com olhos inocentes, como se implorasse pra eu dizer que ainda havia esperança. Sussurrava Lou Reed na minha orelha, enquanto abria os botões da minha camisa. E eu fingindo que não ouvia seu apelo. Fingindo que não entendia. Fingindo que nada daquilo era comigo. Que não era meu corpo largado sobre aquele lençol. Branco no branco, quase se confundindo. E eu comecei a cantarolar With a Little Help From My Friends, como se fosse um Joe Cocker com a dignidade de entoar uma canção dos Beatles em pleno Woodstock, quando a maconha ainda era a única responsável pela fumaça que subia ao céu e quando ainda se acreditava na salvação pelo amor. Eu, sendo ridiculamente ingênuo diante de uma mulher que me convidava pra um passeio em seu corpo com os olhos marejados. E ela me calava a boca selando aquele momento estúpido com um beijo e repetia como se fosse um mantra “não há mais como fugir”. Talvez meus olhos dissessem que eu queria crer numa fuga, embora eu já não acreditasse nem mesmo no dia seguinte, me sentindo um suicida e pensando nos versos de Manuel Bandeira. Devo ter pensado alto demais. Ela me disse que o suicídio é um pacto social ou alguma coisa assim que agora não lembro, algum jargão diretamente importado de um livro de Durkheim ou Webber ou Marx ou qualquer um desses barbudos que nos embalam os fins de noite, quando a cerveja esquenta no copo e uma cama solitária é o melhor horizonte que se pode vislumbrar. Disse ainda que aquilo que estava acontecendo também era um pacto social e eu lembrei que estava ali cumprindo uma espécie de promessa tácita, ou mesmo uma profecia declarada que fosse, já pouco importava. Então rasguei sua blusa em um só golpe. E ela riu como se houvesse graça, como se eu estivesse queimando seu sutiã em plena revolução feminista. E protagonizávamos uma cena estranha e sincera. E quanto mais ela gargalhava, mais se enternecia. E aquela melodia dissonante entrava com guitarras distorcidas solando, como um hino maluco feito pra uma noite que já dava sinais de seu fim. E ela continuava sorrindo e arrancando as últimas peças da minha roupa com pressa de vampira, como se não pudesse me ver à luz do sol que começava a surgir. E eu comecei a cantar junto com ela alguma música improvável para aquele momento, alguma Edith Piaf. E tudo começava a fazer um certo sentido torto, como um ritual de imolação em que a única expurgada seria nossa ingenuidade de querer concretizar algo impossível ao som de Edith Piaf. E continuamos cantando, nus, enquanto beijávamos nossos corpos com a mesma devoção com que os católicos beijam a mão do padre. Até que ela, embalada por nossa cantiga, sutilmente adormeceu. Levantei ainda trôpego e me apoiei no armário, como se fosse pedir mais um drink pra algum barman que ainda tivesse a piedade de ofertar a última dose.  E fiquei olhando-a, em seu sono de criança, conservando o sorriso inocente de quem ainda quer acreditar a todo custo numa noite de promessas cumpridas e sonhos refeitos ao som de Edith Piaf.



Escrito por Kiko Rieser às 19h13
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   Mini-conto 12

 

Menino, que história é essa de virar artista?! Artista de quê? Pintor?! Pensa bem, não é a sua cara, não te veste, sabe? Você até pode achar que a roupa é seu número, mas, quando olhar direito, vai perceber que o cós está muito largo ou está apertado atrás. Vê lá se isso é ideia que se tenha assim do nada! De onde você tirou isso, meu filho? Não disfarça pra sua mãe, não, que eu sei bem que isso não deve ter saído da sua cabeça. Filho, eu te amo e te apoio em tudo, você sabe, mas eu não concordo com isso, não. Não é pra você, acredite, eu sei, sou mais vivida que você. Eu conheci dezenas de artistas e não, não quero você metido nessa. Não faz sentido. Você realmente me surpreendeu dessa vez. Quando eu acho que você já achou seu caminho na vida, me vem você com essa. Uma mãe espera muitas coisas, mas essa eu não esperava, te juro. Ainda estou meio estupefata, mal sei o que dizer. Que coisa antiga de se dizer, né? Estupefata... Sua geração ainda fala que está estupefata? Sua geração não sabe nada, não aprendeu nada, veja você com essa história de virar pintor. Se seu pai estivesse vivo, ele diria a mesma coisa, tenho certeza. Você devia ouvir mais o que eu digo, não sei por que vem me consultar se já está com a decisão tomada. Eu sei que é uma escolha sua, mas não, não devia ser assim. Você não tem idade pra isso. O que seus amigos acham dessa história? Viu só! Você precisa entender, meu filho. Não é simples assim como você está pensando. Você já tem setenta e dois anos, Adolfo. Já passou do ponto pra isso. Você cresceu vendo seu pai e eu varando madrugadas na escrivaninha. Nós não nos tornamos escritores, nós nascemos escritores. Tinha um demônio queimando a gente por dentro, tinha um troço engasgado na garganta, tinha uma aflição, entende? Não era pra passar o tempo, pra ocupar os momentos de ócio. Era pra valer, questão de vida ou morte. Você já viveu uma vida sem isso, pode morrer sem isso. Vê o Pedrinho tentando tirar som da flautinha de brinquedo? Esse, sim, esse vai virar um músico, com "m" maiúsculo! Está nele, ninguém tira. Você não precisa virar artista porque veio de uma família de artistas ou porque seu neto de três anos já consegue arrancar sequências melódicas de um pedaço de madeira mal feito. Meu filho, vai descansar, isso não é pra você. Você não tem idade pra isso. Já já passa, é fase!

 

 



Escrito por Kiko Rieser às 21h25
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   Mais um trecho de uma peça que eu não acabo nunca de escrever

ELE - Havia um vazio aqui dentro que eu precisava preencher com você, como os obesos que compensam tristezas esvaziando a geladeira, ou os workaholics que viram madrugadas fingindo ignorar o que está fora do escritório, ou os bêbados que preferem a dor do fígado se corroendo do que uma angústia indiagnosticável. Eu sentia necessidade de te consumir, de te deglutir, te engolir inteira pra depois descobrir o que fazer. Te ver me angustiava, te beijar me angustiava, trepar com você me angustiava, porque eu continuava vazio por dentro, e eu precisava de você, precisava mais do que era possível que você desse, precisava me fundir com você, precisava que você fosse literalmente parte de mim pra que o seu sentido de vida virasse meu sentido também, pra que minha vida não parecesse vazia, pois foi isso que ela sempre me pareceu, e não me pergunte por quê, simplesmente era assim, numa impossibilidade de ser feliz ou qualquer coisa parecida pela mera incapacidade de me desligar do que não posso ter ou ser. Eu queria um sentido e esse sentido era você, mas era mais que você, era uma apropriação indevida, como se eu tornasse minha a sua vida. E mesmo presente, você era ausência. E eu queria te consumir, não como se consome algo pra depois jogar fora os restos, mas pra absorver tudo, como os cigarros que eu fumava até o filtro não resistir mais, e em cada ponta que sobrava era uma nova ausência pra eu atirar no cinzeiro. Eu não podia deixar sobrar o filtro, eu não podia suportar que você ainda permanecesse fora de mim, por isso eu me afastava sempre, pra que a volta preenchesse por um segundo o vazio. Se eu ficasse, teria atingido o limite, teria chegado na ponta do filtro. Por isso eu acendia um cigarro no outro, por isso eu me afastava e voltava, eu precisava te sentir minha, eu precisava ser seu. Me perdoa!



Escrito por Kiko Rieser às 18h16
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   P/ Heitor Jr

Precisou de um segundo pra assimilar. O dia estava modorrendo e novelos de poeira se juntavam nos cantos. O calor turvava seus pensamentos, também enovelados. Era preciso desatar os nós, pôr fios a pique de novo pra que algo fizesse algum sentido. Não fazia nenhum, foi o que concluiu mesmo depois de todas as ideias postas no lugar. Como sempre, sofria por antecipação, e a saudade que sentiria dela já se fazia latente e real, como um monstro que nos surpreende em um sonho. Real é a dor que sentimos. Sim, por que esconderia de si mesmo?, já era dor, aguda. Mas ele engoliu em seco. Rangeu seus dentes como se não pudesse empreender aquela força em outra coisa que fosse visível ao mundo. Sua raiva acumulada transbordava por dentro. As maiores coisas são invisíveis aos olhos e ele até se divertia com um dilúvio que ninguém via. Patético, ria pra segurar o choro que já começava a dar sinais de vida. Ficou parado ali, no meio da praça, e quando olhou pro relógio por não saber com o que ocupar os olhos, eram cinco pra meio-dia. Baixou o olhar com inércia e viu que o sol a pino não fazia sombra. Sem reflexo preto abaixo de si, entendeu algo como num momento de epifania. Sorriu, parado, rezando pro tempo passar depressa e ter logo uma nova sombra aos seus pés. Sabia que o sol logo iria se deitando e essa certeza o reconciliou com algo cuja definição exata era algo sobre o que os antigos divergiam, mas que dizem que os budistas definem apenas como junção de paz e sabedoria: paciência.



Escrito por Kiko Rieser às 18h54
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   CARROS 2

 

Carros 2 chega ao Brasil num momento curioso. Depois do massacre da escola do Realengo, o Brasil finalmente começou a discutir a questão do bullying, que sempre existiu e já prejudicou a formação de muita gente. Em outros países, como os Estados Unidos, é pão diário esse tipo de retaliação daqueles que foram achincalhados na escola, vide Columbine. Fica faltando perscrutarmos os motivos de esse tipo de ato ser menos comum aqui no Brasil. Talvez seja pela dificuldade de acesso a armas ou porque nos EUA o bullying seja ainda mais forte, dentro de uma formação grupal estratificada nas escolas: há os atletas, os nerds, as princesinhas e as feias. Nunca fui lá e não sei se isso é verdade ou fantasia de filme da Sessão da Tarde, mas condiz em muito com a sociedade estadunidense e seu culto desmedido ao esporte e à beleza, ainda mais intenso do que no Brasil.

O filme trata exatamente disso, e sua parábola é clara: os carros velhos se sentem preteridos pelos carros novos e potentes e, por isso, decidem se vingar, armando uma conspiração para descreditar os combustíveis alternativos, obrigando todos a usarem exclusivamente o petróleo, cujo monopólio eles detêm. Quem mostra que a vingança não é solução é Mater, um guincho pra lá de enferrujado que é amigo dos carrões, como McQueen, o maior corredor do mundo.

É uma animação clássica da Pixar: personagens carismáticos, diálogos afiados e um traço de primeira. Entretanto, em termos de história é muito mais pobre do que outras animações recentes, como Toy Story 3 e Rio. Estes dois filmes têm temas mais controversos: respectivamente, a obsolescência do sentimento de pertencimento e a dor e a delícia que a liberdade traz. Diante disso, trazem enredos complexos, em que as personagens trafegam pelos dois lados da moeda: experimentam algo que acreditam ser ideal, mas acabam compelidos a uma nova realidade, que descobrem ser ainda melhor. Aqui não, há a já conhecida história do malogro da tentativa de vingança. Para adultos, uma trama boba, ao contrário de Toy Story 3 e Rio. Para crianças, um divertido filme que introduz uma questão importante, passando uma lição fundamental de cidadania e ética. É o bastante.

 



Escrito por Kiko Rieser às 13h31
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   SEM PENSAR

Sem Pensar", peça da jovem inglesa Anya Reiss com Denise Fraga, me lembrou a discussão sobre “riso fácil" ocorrida no blog do Mário Viana (http://www.olharesloiros.blogspot.com/) acerca do espetáculo "Deus da carnificina", sobre o qual também escrevi no último post. Assim como o Mário, não gosto do termo "riso fácil", mas proponho outro: riso superificial. Esse riso, que a Christiane Riera viu no "Deus da carnificina” (visão da qual discordo inteiramente), me parece acontecer o tempo todo em "Sem pensar".

A peça me remeteu bastante ao filme “À deriva", do grande diretor Heitor Dhalia. Embora com direção excelente, o roteiro do filme não me convenceu. A sinopse é parecida com esta peça. Uma família em dissolução com uma filha adolescente que começa a lidar (sozinha) com a própria sexualidade. Mas há duas diferenças que engrandecem a peça em relação ao filme: uma é que não se trata só de uma iniciação sexual, mas de uma relação deliberada com uma pessoa mais velha, com todos os percalços que isso traz (no filme, a garota dá pra um cara bem mais velho, mas a idade dele é quase irrelevante, apenas exerce um pequeno fascínio sobre ela); a segunda é que não é só a dúvida e a inquietação que se ligam aos pais em crise, mas pelo contrário, ela devolve à família a maturidade adquirida, o que se prova na cena final que amarra toda a peça e me dá uma vontade de fazer spoiler, mas não farei. É, na peça, muito mais do que o rito de passagem meramente sexual do filme, é crescimento intelectual e emocional, é um aprendizado a segurar toda uma família desestruturada. O título (muito bem traduzido do original "Spur of the moment") aparece duas vezes: quando o pai diz à mãe que seu caso extraconjugal foi sem pensar e quando Delilah - a garota, com 13 anos - diz a mesma coisa quando agarra pela primeira vez Daniel, de 20 anos. A cena final é quando finalmente Delilah faz algo muito bem pensado e assim consegue pôr uma certa ordem na casa. A garota virou mulher.

No entanto, a direção de Luiz Villaça trabalha com os aspectos mais superficiais da peça, fazendo de tudo para gerar piadas e risos. O problema maior acaba sendo a composição de Delilah. Júlia Novaes, que já fez trabalhos de grande intensidade no teatro, faz aqui um estereótipo de adolescente que casa bem com o começo da peça, quando, junto com as amigas, assiste a "Harry Potter", ouve as músicas do "High school musical” e discute programas televisivos fúteis. No entanto, permanece a mesma até o fim, em contradição com o texto, que demarca claramente a evolução da personagem. Quando, já chegando ao fim do espetáculo, ela acusa a amiga de gostar de coisas tolas como "High school musical”, ela não é mais a mesma, mas Júlia a representa como se fosse. Por isso fica tão inverossímil que Daniel se interesse e quiçá se apaixone por ela. A linguagem de Delilah quando se dirige ao garoto é diferente da que usa com as amigas, ela tenta parecer madura, sedutora, uma lolita kubrickiana. Mas Júlia faz papel de criança e quando chega a epifania final, tudo parece fora do lugar.

Toda a composição do espetáculo aponta pra esse mesmo caminho e Denise Fraga (que fez um excelente trabalho recentemente em “A alma boa de Setsuan") é quem mais explicitamente tenta fazer graça para o público. A peça é, por si só, engraçadíssima, quando flagramos contradições inerentes aos personagens. Quando Vick repreende o marido por falar palavrões na frente da filha e um minuto depois o xinga de escroto de merda, rimos desse seu lado patético e totalmente humano. Não precisava baratear como, por exemplo, quando o telefone toca no meio de uma discussão e ela atende de forma raivosa, sendo que ela tenta o tempo todo manter aparências, indagando sempre o que os outros falam sobre ela e a traição do marido. Se, no meio da gritaria, disfarçasse para quem está do outro lado da linha, a personagem ficaria mais densa, mais cruel, mais patética e, por isso mesmo, mais engraçada. Isso é só um exemplo, como tantos outros charminhos que Denise faz pro marido em momentos em que a personagem está se abrindo totalmente. Assim como é estranho, pra quem se preocupa tanto com as aparências, que as brigas entre ela e o marido na frente de Daniel (um estranho que aluga um quarto da casa) não sejam disfarçadas. Não precisa de humor pastelão para ser engraçado. Seria muito mais cômico (e muito mais de acordo com o texto) se houvesse uma tentativa malograda de contenção, em que, quanto mais se esforçassem pra não explicitar a ruína do casamento, mais a evidenciassem, com o volume de voz aumentando pouco a pouco, os olhares revelando o que a fala quer esconder, o corpo se inquietando.

Villaça, cineasta que faz sua primeira incursão no teatro, diz que se assustou com a responsabilidade de fazer no palco um plano sequência de mais de uma hora. Vejo essa dificuldade nas mudanças de cena, esquemáticas, com a luz baixando, um rock entrando (desperdiçando-se o talento de Theo Werneck) e os atores cumprindo minúsculas funções de contra-regra, sendo que quase todas são dispensáveis, pois poderiam ser resolvidas na própria cena, por exemplo, quando uma atriz/contra-regra guarda na geladeira a jarra de que Delilah poderia ter guardado depois tomar o suco. A luz também é esquemática, e no máximo apaga algum dos ambientes da casa (num cenário muito bem sacado que remete às montagens de “A morte de um caixeiro viajante") ou abaixa a geral nas transições de cena. É incapaz de fazer o óbvio na cena em que todos assistem a um filme e discutem se o abajur deve ou não ficar aceso. A penumbra necessária pra essa cena é ignorada, permanecendo a luz na mesma intensidade de toda quase toda a peça. Talvez o iluminador e o diretor entendam que luz de comédia é assim, uma coisa mais aberta, uma geral que oscila um pouco. Eu discordo. Discordo também que comédia seja assim. Há um buraco muito mais embaixo. Como espectador, quero rir do personagem, não do ator. 

Isso funciona com as amigas de Delilah, três atrizes muito jovens do Célia Helena, que conseguem segurar bem seu papel, especialmente na primeira cena, em que Delilah ainda é mesmo infantil e, por isso, em sintonia com a interpretação de Júlia. Dá prazer vê-las, assim como é visível que, apesar da concepção dos personagens, há bons atores. E, exceto nas cenas de brigas excessivamente carregadas, vemos o desespero de Nick (intepretado por Kiko Marques) tentando apaziguar sua esposa, que repete sempre as mesmas acusações. É essa tentativa de conciliação aliada ao seu fracasso que soa risível. Em suma, o cômico vem do personagem, não do ator.

 

 



Escrito por Kiko Rieser às 02h18
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   DEUS DA CARNIFICINA

Criacionistas (em que pese a proliferação evangélica) continuam em perene briga com os evolucionistas, sem qualquer argumento que refute a já provada tese darwiniana. Não é difícil compreender que viemos do macaco se deixarmos de lado nosso olhar auto-indulgente e antropocêntrico (não entendido aqui como oposição única ao teocentrismo). E não é coincidência que os homens que escreveram a Bíblia tenham formatado seu deus à nossa imagem e semelhança. Somos muito pretensiosos e esquecemos com freqüência que somos nada além de animais. Racionais, é verdade, mas, ainda assim, animais. Precisou que alguém como Freud desmistificasse os instintos sexuais para (alguns de nós) acreditarmos que a moral e os bons costumes não são nada quando a pele pede pele. Continuamos julgando os outros quando perdem a cabeça, enquanto todos temos nossos momentos de descontrole. Quem nunca quis matar alguém que atire a primeira pedra.

É de tudo isso que trata “Deus da carnificina”, de Yasmina Reza (mesma autora de “O homem inesperado”, que foi montada com Paulo Goulart e Nicete Bruno, sob a batuta do mesmo Emílio de Mello – ator excepcional que já trabalhou diversas vezes com a Cia dos Atores – que agora dirige este outro texto da francesa). O mote da peça – dois casais que se encontram para discutir a briga entre seus filhos pré-adolescentes, em que um desfigurou a cara do outro e lhe quebrou alguns dentes – já apresenta explícita e implicitamente dois de nossos maiores instintos animais: a violência e a proteção da prole. Há camadas de uma civilidade hipócrita que vão se desfazendo ao longo da peça para que algumas das verdadeiras facetas dos quatro adultos surjam como faces do horror. Yasmina Reza cuida para que a tentativa de manutenção da cordialidade, como convém às aparências, seja o último baluarte a cair, e por isso é em grande parte por vias paralelas que os desentendimentos vão surgindo, desde alguns telefonemas de trabalho que põem em cheque a idoneidade de Alain, até o vômito (involuntário) de Anette sobre um livro raro de Verônica. No entanto, o que começa como uma rusga entre os dois casais em defesa de seus filhos se transforma em uma exposição dos pensamentos mais torpes dos quatro personagens, rompendo também as aparências matrimoniais, em uma briga generalizada onde cada um está por si. Dentro dessa terra de ninguém, emerge outro dado fundamental do comportamento humano: o oportunismo. Quando um interlocutor encontra concordância em qualquer outro personagem, mesmo sendo este do casal inicialmente opositor, forma-se uma espécie de dupla temporária no embate com os antagonistas.

Este aspecto é sutilmente ressaltado na encenação de Emílio de Mello por meio da disposição espacial. Uma longa mesa (feita de Lego, o que evidencia a instabilidade da cena e certa infantilidade dos personagens) atravessa a sala de Michel e Verônica, pais da criança agredida e anfitriões desta reunião sinistra. As duas extremidades da mesa pontuam muitas vezes a polarização do embate, em que as duplas se juntam cada qual a seu lado, criando quase uma ciranda de falsos aliados.

Se há um comportamento igualmente vil da parte de todos os personagens, também há individualidades e idiossincrasias diferentes e, por isso, cada personagem reage de uma maneira diferente à situação, o que já é indicado pelo texto, mas acentua-se na encenação. Assim, Deborah Evelyn, no papel de Verônica, é a mãe defensora da integridade filial, agindo de forma enérgica, quase como um centro catalisador que busca pôr ordem na casa, com um volume de voz sempre um pouco maior que o dos outros e uma postura corporal rígida, cada vez mais inflexível e inflamada à medida em que vai se revelando e acusando os outros. Orã Figueiredo, como Michel, tenta fazer as vezes do bom anfitrião, bonachão, generoso e apaziguador, relaxado em sua cadeira e com um sorriso permanente no rosto, que vai se transformando em sarcasmo com a densidade da discussão. Talvez pela ausência de instinto maternal, os dois homens são os mais desligados do assunto em pauta, formando um contraponto mais cômico ao drama das mulheres. Se Figueiredo apresenta o humor bonachão, Paulo Betti, interpretando o irrequieto Alain, tem um humor mais sutil, que vai pela linha do desdém. Sua expressão enfastiada e seus gestos inquietos casam bem com o personagem mais consciente da hipocrisia que ronda a reunião. Desde o começo, apresenta-se mais atento aos telefonemas de trabalho do que à reunião e é o primeiro a se levantar por diversas vezes e andar pela sala. Sua esposa, Anette, representada por Júlia Lemmertz, apresenta como valor de face o desconforto, como se carregasse a responsabilidade por ter criado um agressor. Seu corpo titubeia e sua voz é vacilante, pontuada por gaguejos em momentos em que é acuada. Ela está prestes a ruir e, mesmo quando rompe a máscara social, é com extrema melancolia que se expõe.

No entanto, o mais curioso da montagem é que uma das principais patrocinadoras é a EMS Pharma, sendo que a peça critica o tempo todo a indústria farmacêutica, já que Alain é advogado e, por seus telefonemas, vemos que ele está tentando calar diversas vítimas de um remédio que ele insiste que não deve sair do mercado. Claro que é uma metonímia que se refere às muitas indústrias farmacêuticas que vemos constantemente agindo dessa forma criminal, não necessariamente à EMS, mas não deixa de ter uma boa dose de provocação. Eu vi a peça numa sessão fechada para esta empresa (não faço parte dela, mas eu e a lindíssima Amanda Ferrarese acabamos entrando como convidados da produção, dois estrangeiros numa legião desconhecida) e o público ria desbragadamente com os telefonemas de Alain. Ou a EMS é uma empresa séria que confia no seu taco ou o teatro continua sendo um ótimo espelho no qual as pessoas insistem em não se ver refletidas, ou seja, nossa profissão é vã. Espero que a primeira alternativa seja a verdadeira.

De tudo que vi, é – junto a “Doze homens e uma sentença” e “Luís Antonio – Gabriela” – o que de melhor há em cartaz em São Paulo.

 



Escrito por Kiko Rieser às 17h02
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   Zé Renato e Bin Laden

Nesta semana, no mesmo dia, morreram duas pessoas que fizeram história, cada um a seu modo: Osama Bin Laden e Zé Renato.

Zé foi fundador do Teatro de Arena, pioneiro do teatro político brasileiro. Encenou Brecht, Guarnieri, e tantos outros. Estava no esquecimento de todos (dirigindo peças das quais pouco se ouvia falar), quando se fez notar novamente ao voltar aos palcos como ator, depois de décadas apenas dirigindo. O espetáculo foi "Doze Homens e Uma Sentença", de Reginald Rose, brilhantemente dirigido por Eduardo Tolentino e com um elenco de peso. Ganhou, merecidamente, o APCA de melhor espetáculo de 2010. Fez (e ainda faz) longa temporada, sucessso de público e crítica. Lembraram que o Zé, mais um Zé entre tantos Zés, existia. Lembraram que ele tinha uma história nas costas. E no auge desse reconhecimento, ele se foi. Triste pra todos que, como eu, o admiravam. Mas compreensível, tendo em vista os 85 anos vividos.

No outro hemisfério do globo, uma operação estadunidense declarou ter matado Bin Laden, procurado há quase dez anos pelos ataques terroristas ao WTC. Muita gente desacredita nessa autoria do ato, creditando-o aos próprios EUA, numa tentativa de forjar um motivo que fundamentasse uma guerra ao Oriente Médio, rico em petróleo. Diante de diversas evidências, eu mesmo fico em dúvida. Assim como fico em dúvida se ele morreu mesmo, já que corpo não se viu. Mas são suposições.

Muita gente da classe teatral, no dia da morte de ambos, postava ardorosamente no Facebook que Zé era muito mais importante que Bin Laden. Ora, exceto nos casos premidos pelo caráter passional (não são poucos os amigos de Zé que sofreram profundamente com a perda), isso é de uma estupidez tão grande, mas tão grande, que só evidencia uma coisa: como tem gente no teatro que é umbigóide.

Sim, Zé era um cara muito bacana. Bin Laden, até onde sei, muito pelo contrário. Mas até aí, importância independe de juízo de valor ou de, famigerada palavra, caráter. Hitler e Ghandi são igualmente importantes (talvez Hitler ainda o seja mais). Também não se trata de fama, pois Zé foi tão ou mais importante que Antônio Fagundes. A questão são simplesmente as realizações e suas consequências. Bin Laden matou centenas (ou milhares?) de pessoas. Zé Renato mudou o rumo do teatro brasileiro, o que mudou em pouca medida a vida de poucas pessoas. Bin Laden é MUITO mais importante que Zé Renato. Pro mundo. Individualmente, a coisa é outra. Pra mim, existe uma pessoinha chamada Amanda Ferrarese que é a mais importante do mundo. Mas só se eu fosse demente eu diria que a Amanda é mais importante que o Bin Laden, ou o Bush, ou o Lula. Perguntem pras famílias de pessoas falecidas no 11 de setembro se o Zé é mais importante que o barbudinho (não, desta vez barbudinho não é o Lula). Beira o desrespeito essa colocação.

A classe teatral continua achando que é o centro do mundo. Nosso trabalho é importante, sim. Também são importantes o trabalho do lixeiro, do padeiro e do Seu Mundinho (se não sabe quem é, dá um google). Talvez o nosso seja um pouco mais importante (eu disse mais importante, e não maior ou melhor) que alguns outros, por exercer mais influência sobre as pessoas. Mas é tão pouquinho que a gente muda o mundo. Quem muda o mundo, quem é realmente importante, são esses que estão nos livros de história (e alguns outros que a história oficial fez questão de omitir). Nós (alguns de nós) estaremos no máximo em alguma enciclopédia cultural. Resignemo-nos à nossa insignificância.



Escrito por Kiko Rieser às 17h46
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   EX-istir

Tenho pena dos ex-namorados. Sim, sinto pena, dó, compaixão.

 

Ora, e não sabem todos o que as pessoas falam de seus ex-namorados? É dever conjugal desmerecer os amores do passado para fortalecer, por comparação, as qualidades do par atual.

 

Os namorados que pedem que não se fale sobre o passado do cônjuge temem por sua própria insegurança. Os que, pelo contrário, indagam sobre o currículo do ser amado não o fazem por outro motivo: perguntam qualquer coisa como se perguntassem “eu sou melhor que ele, né?” Afinal, “eu te amo” também não deixa de ser uma pergunta.

 

Sabido isso (e não há diletante amoroso que não o saiba), é crime inafiançável deixar de exaltar as qualidades do namorado em detrimento aos defeitos do ex. Relacionamentos não duram se não há, permanentemente, uso de superlativos que enalteçam o ego dos amantes. Na primeira referência positiva ao antecessor amoroso, o relacionamento acaba.

 

Não bastasse isso, é tendência natural falar mal de ex-namorado, já que ressentimentos são frutos certos da memória seletiva e da necessidade de superação.

 

Chegar ao ponto de encontrar o(a) ex do(a) seu(sua) atual é, sem dúvida, um marco de uma etapa avançada da relação, como se houvesse uma graduação: conhecer a pessoa em questão, conhecer intimamente a pessoa em questão, conhecer o lado negro da pessoa, conhecer os amigos, conhecer a família e, só então, depois de já conhecido até mesmo o primo-de-quarto-grau-que-mora-no-exterior-e-só-vê-a-família-uma-vez-por-ano, chegar ao cruel ponto de conhecer o ex.

 

Antes do desagradabilíssimo encontro, portanto, passa-se por uma longa trajetória de um relacionamento construído sobre diversos pilares de sustentação, dentre eles a comparação em relação aos ex-namorados, em que estes sempre perdem.

 

Basta ter um pouco de discernimento para saber que o diabo não é tão feio quanto o pintam. No entanto, pode descer o pincel que hoje é dia de aquarela. E, assim, o atual namorado se gaba veladamente de sua superioridade sobre o ex, que, por seu lado, sabe que suas tintas estão carregadas, motivo pelo qual jamais encara o atual de cabeça erguida, olhos nos olhos.

 

E não importa quem tenha terminado o relacionamento. Se foi a pessoa em questão, tanto pior. O ser do pretérito fica ainda mais fragilizado, já que o do presente tem algo que lhe foi tirado contra sua vontade. Mas mesmo que o fim tenha sido decisão do ex, não importa, pois ele já esteve, voluntariamente, no lugar do atual. Ter dado o ponto final não o dignifica, até porque a pessoa em questão provavelmente amadureceu entre os dois relacionamentos e o que o atual tem é ainda melhor do que o que o ex teve.

 

Não há escapatória para o ex-namorado. O sentimento de inferioridade lhe é inerente.

 

Já o ex-affair, pelo contrário, sempre estará em melhor posição que o atual namorado. E, mais uma vez, não importam os motivos do fim do breve caso entre ele e a pessoa em questão. Ele teve aquilo de melhor da pessoa em questão, teve o benefício da intensidade, a alegria do breve, a pureza do instante. Em outras palavras, tirou uma lasquinha (a melhor lasquinha) daquilo que hoje “pertence” ao atual. Não digo pertencer no sentido de posse (embora ele seja inalienável à monogamia), mas na acepção mais ampla, em que pese a etimologia da palavra, já que “pertencer” deriva de perto, do estar próximo, do cuidar.

 

Guardadas as devidas proporções, o ex-affair é semelhante aos que acariciam o cachorro de um amigo. Ganham o abanar de rabo do cão, talvez uma lambida sincera, mas nunca conhecerão o desprazer de limpar seus dejetos ou de ganhar uma rosnada como ameaça.

 

O ex-affair, como o vizinho acariciador de cachorros, sempre estará em vantagem. Não resta outra coisa senão aceitar este fato.

 

 

 

Colaboração: Amanda Ferrarese, a primeira-dama deste blog.



Escrito por Kiko Rieser às 22h41
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   O DIA EM QUE ENTERRAMOS LORD BYRON

Eu andava tão certinho

Relógio no pulso, colarinho

Emprego oito horas, cartão

Vale transporte e refeição

 

Eu já tava meio

De saco cheio

Quando você veio

Pedindo um isqueiro

Um maçarico, um fogareiro

 

É pra pôr fogo na cidade ou em mim?

Vem nessa, garota, chega de spleen

Venha pôr fogo na cidade e em mim

 

Você deu seu meio sorriso

Aquele de lado, indeciso

Como quem quebra um silêncio

Como quem pede um incêndio

 

Mandei minha vida pros ares

Mandei meu cartão pros bares

Meu telefone pra garçonete

Te mandei de presente um corpete

 

Preparei lareira

Em pleno verão

Pra noite inteira

Separei carvão

Lenha e madeira

Queimando o chão

 

É pra pôr fogo na cidade ou em mim?

Vem nessa, garota, chega de spleen

Venha pôr fogo na cidade e em mim

 

 



Escrito por Kiko Rieser às 22h15
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   O discurso do Oscar

Há alguns anos, o Oscar vem pautando os escolhidos como Melhor Filme por um critério bem explícito, ao menos da forma como eu enxergo. Todos têm temas parecidos, cercando a questão da (não) inserção de um ou mais homens na sociedade. Um asssunto bastante interessante, não fosse o fato de todos eles terem isso como uma fachada que esconde uma trama de ações bastante parecida com os filmes de ação e/ou de suspense: o roteiro acompanha mais as surpresas dos fatos do que suscita reflexão sobre eles.

Ao contrário do que muitos disseram, "O discurso do rei" é mais um entre tantos engodos que o Oscar vem empurrando com a mesma embalagem. Parece realmente algo interessante, olhando a sinopse: um princípe, depois coroado, pai de nossa conhecida Elisabeth, é gago. Claro, por traumas emocionais, como todos (ou quase) os gagos. No entanto, o filme tem um erro básico: se prende no presente, sendo que tudo que interessa à questão do tartamudeio diz respeito ao passado.

Quando o então príncipe Bertie vai procurar uma espécie de fonaudiólogo, o profissional lhe diz que não adianta tentar curar a mecânica da fala, pois o problema não reside aí. O teimoso membro da corte, no entanto, acha estranhos esses procedimentos e não os aceita bem. O fonoaudiólogo, que parecia alguém de princípios incorrompíveis, aceita diversas concessões pra tratar da sua majestade, e é aí que esse personagem começa a se mostrar frágil. Ele parece deixar de servir a uma trama de buscas psicológicas pra um problema aparentemente físico pra servir à questão brechtiana de que todo homem tem um preço. Tratar um príncipe é o valor que faz com que ele abra mão do seu tratamento fundamentado em suas próprias regras. Tanto é que as causas da gagueira só aparecem em um momento, quando o "doutor" tira do paciente informações sobre repressão na infância: ele era canhoto, mas foi obrigado a se tornar destro; teve que usar um aparelho corretor pra perna (que era torta ou algo do tipo) que lhe causava dores lancinantes. No entanto, nada disso é tratado pra superação do paciente acontecer, e todo o tratamento acaba baseado na mecânica mesmo. O foco do filme de psicológico passa a ser o suspense se ele vai conseguir fazer direitinho o tal discurso do título .

O passado é deixado pra trás. E, antes mesmo de ele ser rei e o tal discurso se impor como um objetivo final, o que se acompanha é todo o trâmite de sucessão real, desde seu pai, passando pelo seu irmão, e toda a expectativa da possibilidade de ele ser coroado, até ele se tornar, de fato, soberano. É claro que a possibilidade iminente vai deixando-o cada vez mais nervoso, intensificando a gagueira. Mas isso beira o óbvio e basta uma ou duas cenas pra isso ser compreendido. Muito se mostra da vida do irmão, mas praticamente nada (além de uma breve menção a Bertie se sentir coagido e diminuído pelo irmão) da relação entre os dois é desvelado.

Restam, então, pinceladas de outras linhas paralelas da trama, como o preconceito que o fonoaudiólogo sofre na corte, em virtude de seus métodos nada ortodoxos. Mas aprofundar o que era pra ser a questão central do filme, nada. Sai-se do cinema sem saber como uma insegurança pode ser tratada. Nada de psicologia, nada de cinema. Tudo de Oscar



Escrito por Kiko Rieser às 00h08
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   ESTREIA



Escrito por Kiko Rieser às 22h32
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   Nova canção

AGORA JAMAIS

 

você abriu a mão

soltou a minha da sua

me deixou perdido na rua

sem direção

 

você nem acenou

com a absoluta certeza

de cabeceira de mesa

você me esperou

 

mas eu no meu rodopio

danço, canto, assobio

e encontro meu espaço

onde o calor faz regaço

onde o amor faz seu porto

e eu atraco meio torto

mas me firmo no cais

e faço do agora jamais

 

você espera o retorno

como quem fita o horizonte

e quer cruzar a ponte

só de olhar o entorno

 

já devia sentir

que o espaço se alongou

que o tempo passou

pois você deixou ir

 

e eu no meu rodopio

danço, canto, assobio

e encontro meu espaço

onde o calor faz regaço

onde o amor faz seu porto

e eu atraco meio torto

mas me firmo no cais

e faço do agora jamais

 

 

 

Ela tem um dos versos mais bacanas que já escrevi (com a absoluta certeza/ de cabeceira de mesa). Há tanto tempo tentando retratar os resquícios da sociedade patricarcal e agora consegui um sintetismo há muito almejado.



Escrito por Kiko Rieser às 12h26
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   Marcha para Zenturo

Ontem fui ver Marcha para Zenturo, parceria entre dois grupos interessantíssimos: Espanca e XIX.

De linguagens muito diferentes entre si, eu esperava ansioso pelo resultado da intersecção entre os dois grupos. Me parece que o Espanca prevaleceu. A temática da incomunicabilidade, as aproximações fortes com o teatro do absurdo e uma base de certa forma arquetípica são marcas registradas do grupo mineiro. Do grupo paulista pouco reconheci. O amigo e ator Caio Paduan, que viu comigo, disse enxergar o XIX no lirismo de alguns momentos, como quando o personagem doente (em estado terminal?) fala do gelo, que está em permanente mutação. Talvez o Caio esteja certo, não sei. O que sei é que vejo uma estética cada vez mais definida e mais bem resolvida por parte do Espanca.

A peça me parece tratar de dois temas, imbricados um no outro: a incomunicabilidade e a passagem do tempo. O segundo é fundamental já pra entender como a primeira se dá: uma festa de ano novo, promovida por solidariedade ao amigo doente, em que vários amigos que não se viam há muito tempo se reencontram. Trocam muitas perguntas que, mesmo respondidas, não se resolvem e continuam pairando no ar. Fora as questões, futilidades e uma discussão sobre uma manifestação política (a tal marcha do título) na porta do prédio onde acontece a festa são os temas da conversa. A discussão política nunca se aprofunda e se torna mais uma abstração que causa admiração em alguns e repele outros (pois atrapalha o trânsito), mas, bem ou mal, a todos fascina.

Mais do que no campo verbal, a falta de comunicação entre eles se dá no âmbito formal da encenação. Há um delay entre todos eles. As perguntas são respondidas com atraso, depois que trechos de outra conversa já se entremearam. Da mesma forma, os personagens se dirigem uns aos outros olhando sempre para o lugar onde o interlocutor estava há pouco tempo. Ou seja, cada personagem se encontra num tempo próprio. Isso gera um caos aparente que se soma ao fato de diversas conversas paralelas serem concomitantes. Mas para que o caos seja temática, há muto rigor no espetáculo. As marcas são precisas para que fique clara a defasagem temporal entre eles. E da mesma forma que cada um tem seu tempo, confinados a um pequeno apartamento no centro do palco, Marco, o tal amigo doente, é o único que extravasa também o espaço e paira pelo palco e fora dele: ele vê as coisas de forma diferente, seu enfrentamento com a morte lhe traz outra percepção que faz com que ele não pertença mais àquele ambiente.

Da mesma forma que esses tempos pessoais se diferem, vários outros permeiam a peça. A começar pelo tempo da ação: reveillón de 2041 (algo assim). É interessante que não temos quase dados visuais desse novo tempo, pois mesmo o apartamento em que se passa a peça é estranho para os convidados. Temos alguns dados que até soam óbvios: ninguém mais anda a pé, quase não existem peixes, as plantas brotam de sementes injetadas em paredes ou sabonetes e Marco é um nome que todos (Lóri, Gordo - que é magérrimo, Noema, etc) estranham. Seria mais interessante se houvesse apenas o que permaneceu igual nesses séculos. E é essa estagnação que se evidencia quando um grupo vai apresentar para eles uma montagem de As três irmãs (embora a peça de Tchékhov não seja explicitada e as três irmãs tenham virado dois irmãos e uma irmã). O tédio e a lassidão das moças que sonhavam em voltar a Moscou espelham a festa deles naquele momento. Uma fala dos irmãos (que no original, se não me engano, é do noivo de Irina) explicita bem o imobilismo através dos séculos: ele diz que em 100 ou duzentos anos, ele tem certeza de que a paz e a felicidade reinarão sobre a Terra. 100 anos depois, estamos nós. Mais algumas décadas, eles da peça. Nada mudou.

Os tempos passam e todos continuam infelizes e sem conseguir se comunicar, mas há algo que ainda é possível: o espetáculo. Não o da sociedade retratada por Guy Debord, mas o espetáculo da forma mais convencional que o entendemos. Ninguém se ouve, mas todos param para ver atentamente a peça encenada para eles, da mesma forma que assistem ao espetáculo da marcha para Zenturo e sua audácia de fazer, em pleno momento da virada de ano, 30 segundos de silêncio. Uma homenagem ao teatro, certamente. Capaz de fascinar mesmo em tempos sombrios. Não só no conteúdo, mas na forma, há a fascinação: Marcha para zenturo é fascinante. Entramos no ano teatral de 2011 com pé direito.



Escrito por Kiko Rieser às 11h56
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   Os melhores de 2010

Sim, é ridículo fazer lista dos melhores do ano. Mas é menos ridículo quando é uma lista pessoal, ou seja, meus preferidos, e não os melhores mesmo, coisa que muitas revistas pretendem elencar a sério. No mais, é divertido, então vamos lá:

Teatro:

Espetáculo - Sideman

Direção - Rodolfo García Vásquez, por Roberto Zucco

Ator - empate entre Fernando Eiras, por In On It, e Luciano Chirolli, por As três velhas

Cinema:

Filme nacional - Viajo porque preciso, volto porque te amo

Diretor nacional - Esmir Filho, por Os famosos e os duendes da morte

Filme estrangeiro - Invictus

Filme infantil - Toy Story 3

Literatura:

Poesia - empate entre Esquimó, de Fabrício Corsaletti, e Dois em um, da Alice Ruiz

Romance - Caim, de Saramago

Contos - A boca da verdade, de Mário Sabino

Música:

Disco - Saudações, de Egberto Gismonti 

Show - Iê Iê Iê, de Arnaldo Antunes

Dança:

Conjunto di Nero, de Emio Grecco

Exposição:

Hélio Oiticica



Escrito por Kiko Rieser às 22h47
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   "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", de Woody Allen

Fazia muito tempo que eu não via algo que me provocasse, algo que eu amasse ou odiasse a ponto de me revoltar, nem filme, nem peça, nada... Ontem aconteceu, com o bom e velho Woody Allen.

Conheço vários filmes dele, o que não é nada diante da filmografia imensa de um cara que faz pelo menos um filme por ano. Mas tenho a impressão de que de uns tempos pra cá ele vem investindo pesado num estilo que se inaugurou (penso eu) com Annie Hall, que é quase de filme de tese. Ele levanta um mote, constituído por um ponto de vista filosófico e dado diretamente por um narrador ou explicitado pelos diálogos, e faz do filme uma glosa a ele. Muitas pessoas acham isso negativo na arte, mas se a arte é, em alguma medida, uma parábola da vida, porque uma história não pode ser uma parábola de uma idéia? Desta vez, no caso de Você vai conhecer um estranho alto e moreno (me permito retraduzir o nome ao pé da letra, pois a versão brasileira tira toda a ironia do título), no entanto, isso se torna mais dialético.

É posto pelo narrador, ratificando a fala de uma personagem: "a ilusão tem mais efeito do que os remédios", ou algo bem próximo disso. O filme todo, que retrata uma família, se orienta a partir da mãe, que, ao ser deixada pelo marido, vai buscar alento numa vidente charlatã que sempre lhe faz previsões maravilhosas. Ao longo da obra, ela é a personagem mais ridícula, posto que a mais iludida, ingênua, ludibriável. Ela é o grande ponto cômico do filme, por ser satirizada ao extremo, já que todas as suas falas são pontuadas por citações da vidente de forma quase descontextualizada, que nada mais são do que vaticínios absurdos tomados como verdades absolutas. Tudo ao seu redor é muito sério (falta de dinheiro devido a fracasso profissional, desejos de traição, amores, ódios) e é acelerado pelo ritmo da direção de Allen. A velha Helena, no entanto, tem outro tempo, parece meio alheia a tudo, o que só potencializa o ridículo do que diz, mal escutando os outros.

No fim do filme, todos que se alimentaram de esperanças possíveis e concretas se dão mal, vendo seus sonhos naufragarem. A única que permanece feliz e realizada é Helena, no que entra o narrador com o epílogo que defende o mote da obra. No entanto, é impossível defender completamente a vida ilusória de Helena, depois de termos rido tanto dela e de vermos que o estranho alto e moreno do título e da previsão da vidente se transformou num baixinho branquelo e, de fato, muito estranho. Há algo que nos faz duvidar disso tudo e, se pararmos pra pensar, fica evidente o paliativo que é a ilusão. Como os outros personagens do filme e da vida real, é evidente que logo Helena terá uma decepção. A diferença é que alguns irão pro analista, outros mudarão o rumo de suas vidas, mas Helena simplesmente buscará uma nova ficção pra se apoiar.

Só os alienados são felizes, já dizia Marx. E isso não é uma apologia à vida de mentira, mas uma visão crua e um tanto pessimista da realidade. E a arte tem que ter uma dosagem de pessimismo, sim, senão o mundo nos parece uma maravilha (o que sabemos que não é) e a arte só corrobora pra manutenção do status quo. Foi assim o ultra-otimista e péssimo último filme de Allen, Tudo pode dar certo (o título já adianta a imbecilidade da obra). Felizmente, o diretor parece ter se revisto e refinado sua visão crítica sobre o mundo, neste grande filme, que, embora classificado como comédia romântica e aparentemente bobo no entrecruzamento de suas histórias, é um dos melhores de sua carreira.



Escrito por Kiko Rieser às 12h30
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   RETIFICAÇÃO

Devido às reformas da Praça Roosevelt, este ano as tendas das Satyrianas não vão ficar lá, mas na esquina da Augusta com a Caio Prado. Segue o flyer retificado. Ah, e, embora não conste no flyer, a peça é grátis.



Escrito por Kiko Rieser às 09h00
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   "Sem retorno"

Pra quem não sabe, as Satyrianas são um evento de 78 horas seguidas de peças.
O DramaMix faz parte das Satyrianas e consiste em peças de até vinte minutos escritas especialmente pro projeto.
Nossa peça tem 18 minutos. É uma mini-peça.
Pra quem tem preguiça de ver coisas longas, não dói nada.
Pra quem tem síndrome de Zé Celso, é só emendar com várias outras peças que estarão rolando pelas Satyrianas madrugada adentro.
Nosso horário é ótimo: sexta-feira, 20h (lembrem que há peças em todos os horários, como 5 da manhã, etc).
Ou seja, não tem por que não ir.
É uma só apresentação, uma só chance.
Espero todos lá.



Escrito por Kiko Rieser às 16h05
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   Leroy Merlin e a falta de respeito

A Leroy Merlin não entregou o material que devia ter entregado ontem de manhã e agora o telefone principal da loja e os números do SAC não atendem ou dão ocupado. Liguei,então, em todas as lojas de São Paulo da Leroy pra ver se eles podiam contactar a loja na qual fiz a compra. Só uma, a da Marginal Tietê, atendeu. A atendente disse que me passaria pro setor de entregas. Misteriosamente, a ligação caiu. A Leroy tem o pior atendimento que já vi na vida! Enquanto isso, a obra continua parada porque o material não chega. Obrigado, Leroy! Mais uma loja que acha que o consumidor é palhaço. Conselho: NUNCA comprem nada nessa merda.



Escrito por Kiko Rieser às 10h26
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   Aviso de utilidade pública

Não façam nenhum negócio com o corretor Fernando Vieira, da Ciranda Imóveis, que é um baita de um pilantra!



Escrito por Kiko Rieser às 23h53
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   Maiores detalhes

Achei estranho dar a declaração de "problemas de um ator" para justificar o cancelamento da última leitura da mostra. Conversando com esse ator, o Marco Antônio Pâmio, ele próprio sugeriu que a verdade toda fosse dita. Pois bem, o que acontece é que ele está gravando novela no SBT e o contrato dele dispõe que, além dos horários fixos das aulas que ele leciona no Célia Helena, todo o resto de seu horário deve estar à disposição de emergências da emissora. Digo emergências porque os horários de cada semana de trabalho são acertados na quinta-feira anterior, ficando o ator, portanto, capaz de agendar seus compromissos pessoais com certa antecedência. Este foi o motivo de eu ter divulgado tão em cima da hora os horários da mostra. Acontece que, mesmo estando avisados da leitura e do compromisso firmado pelo Pâmio, no dia anterior à leitura o SBT mudou os horários dele, em virtude de atrasos na gravação devidos à chuva dos dias anteriores. Pâmio tentou ferozmente lutar pela alforria às 17 horas do dia 2, e eu fui testemunha disso. Ele propunha gravar durante o começo da tarde e depois novamente à noite, ou seja, estava sendo solícito e disposto. O requerimento foi passando por várias instâncias, até chegar ao diretor da novela. Este alegou que, embora as cenas fossem internas, haveria uma tomada enquadrando uma janela e que, portanto, deveria transparecer na tela o horário real da gravação. É claro que, se se tratasse de um filme do Von Trier, o enquadramento podia ser vital pra plasticidade da obra. Mas estamos falando de uma telenovela escrita pela Sra Abravanel, de uma máquina travestida de arte. E essa máquina, mais uma vez, engoliu a arte.



Escrito por Kiko Rieser às 12h13
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É com muita tristeza que anuncio que a leitura que aconteceria amanhã, da peça "Assobio de vento pra seduzir os solitários", foi cancelada devido a problemas de um ator. Aviso assim que for remarcada.



Escrito por Kiko Rieser às 02h53
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   A MOSTRA



Escrito por Kiko Rieser às 01h36
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   O PT desmoralizado

Nos idos de 2002, eu e acho que todos os meus amigos sonhávamos com a possibilidade da estrela do Brasil brilhar, do 13 vermelho ter sua vez. Choramos, comemoramos e fomos à loucura com a eleição de Lula. Mas oito anos depois...

Eu voto no Plínio. Acredito na seriedade do PSOL, por terem todos os membros debandado do PT antes da crise estourar, mas quando o partido já dava sinais de ter enveredado pelo neoliberalismo. Não sou socialista e, sinceramente, não acredito que o PSOL seja, apesar do nome. O que eles propõem, e eu apóio, são medidas socializantes, como limite para a propriedade latifundiária e as reformas agrária e judiciária, que são urgentes. Eles mostraram ser éticos até agora. E, até que se prove o contrário, meu voto vai ser no 50 por muitos anos.

A maioria dos meus amigos também vota no Plínio. Até o Fazão, que é meu amigo meio reaça que costumar votar em tucanos, vai no Plínio desta vez. É tanta gente votando nele que não consigo entender que ele nem sequer pontue nas pesquisas. Mas eu sei que não é coincidência meus amigos votarem nele, é que a renda é muito mal distribuída e, conseqüentemente, o conhecimento também.

Tenho alguns amigos que votam na Marina. Ela surgiu da mesma forma que o PSOL, só que ela é mais famosa do que o Plínio ou o Paulo Búfalo, ela é uma segunda versão da Heloísa Helena. A evangélica já declarou que, embora pessoalmente seja contra aborto, casamento gay e afins, vê isso como um problema social e defende politicamente sua legalização. Mas esse discurso de penso uma coisa e faço outra me cheira mal, não acredito nela.

Alguns amigos, por incrível que pareça, votam no Serra. Um até é amigo pessoal e faz campanha explicitamente pra ele.

Nenhum amigo meu que eu lembre agora vai votar na Dilma. E isso é assustador.

Eu mesmo, que sempre odiei o PSDB e comecei a presente eleição defendendo Dilma num possível segundo turno (jamais no primeiro), hoje não votaria nela se o páreo fosse entre a ex-guerrilheira (e pra mim ex-guerrilheira é elogio, tanto quanto dizer que o PT é ex-ético) e o tucano. Anularia meu voto, provavelmente.

Hoje, sou capaz até de entender quem vota no Serra. Porque o Lula fez a maior de todas as traições possíveis: a traição que acaba com a esperança de um povo. Mesmo os 50 e tantos porcento que votam na Dilma não acreditam mais em grandes mudanças, só na continuidade do que o Lula fez. E há de se reconhecer que ele foi o melhor presidente brasileiro: fez uma política internacional invejável, deu volteios na dívida externa (transformou em interna) que aumentaram a bola do Brasil tremendamente, teve um olhar voltado pros pobres (com muito assistencialismo, é verdade) e pôs muita coisa nos trilhos. Não preciso nem citar que a política cultural do ministro Juca Ferreira foi um desastre. É só dizer que houve escândalos demais, neoliberalismo demais, descumprimentos de promessas demais.

A questão, ficando entre o 13 e o 45, não é nem qual dos dois governaria melhor, mas simplesmente que votar na Dilma é consentir com essa palhaçada toda, com os políticos rindo da nossa cara, nos iludindo.

Cansei, PT! Cansei mesmo! Todo mundo que é esclarecido cansou! Toma vergonha na cara!



Escrito por Kiko Rieser às 02h31
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   A letra de uma nova canção minha

O PALHAÇO RI POR ÚLTIMO

 

Oh, baby

O circo acabou

Este palhaço aqui se cansou

Pode parar de rir

 

Oh, baby

Você se divertiu

Você já cansou de tanto que riu

E eu cansei aqui

 

Então, querida

Siga sua vida

Que a minha eu toco sozinho

 

Quem já foi rosa

Não fica de prosa

Aprende a criar espinhos

 

Oh, baby

Não creia em meu fim

Só vou rapidinho ao camarim

Trocar o figurino

 

Aí, baby

Volto pro picadeiro

Pra fazer piada o dia inteiro

Sobre o meu desatino

 

Então, querida

Siga sua vida

Que a minha eu toco sozinho

 

Quem já foi rosa

Não fica de prosa

Aprende a criar espinhos



Escrito por Kiko Rieser às 10h11
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   Ainda sobre política

Se alguém ainda não sabe, fique sabendo que a Simony é candidata a deputada federal pelo PP, partido do Maluf. Vamos recapitular a história da ex-apresentadora-de-TV-atual-cantora-gospel?

Ela foi ou ainda é casada com o rapper Afro-X, que foi ou é presidiário. Durante o massacre do Carandiru, um dos focos da imprensa era a presença dela no presídio, pois ela tinha ido visitar o marido e acabou ficando presa naquele caos. O massacre absurdo foi coordenado pelo finado Ubiratan, que, como todo famoso esperto, virou político e passou por diversos partidos coligados ao PP. Dizem as más línguas que havia amizade e parceria entre ele e Maluf.

Agora alguém me explica por que cargas d'água a Simony tá nesse partido?



Escrito por Kiko Rieser às 21h38
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   A ignorância política

Em época de eleição, mais triste do que o nível dos candidatos é a ignorância política dos eleitores. Já vi um cara dizendo que não vai votar no Serra só pra não dizer que o presidente do Brasil é o Zé e uma mulher contando que vai votar na esposa do Lula. Claro que são casos de pessoas com pouco estudo, mas nem as "melhores famílias" estão imunes.

Já faz algum tempo que minha avó está apavorada com as pequisas que apontam Dilma como vencedora absoluta da eleição para presidente. Agora, diz ela, a revolução comunista virá. Hoje, ela estava abatida, preocupada, contou que não havia dormido pois tinha feito uma grande besteira: uma moça do censo foi à sua casa e ela contou à estranha o quanto ganhava. Eu ri e perguntei se ela estava com medo de ser seqüestrada por ganhar uma aposentadoria de merreca. Ela disse que não, que o problema é que agora o Governo sabe quanto ela ganha e, quando a Dilma for eleita, seu salário será mais facilmente dividido, sem contar que, naquela casa, certamente serão postas mais pessoas para morar, como na Rússia de Stálin. Eu, sem saber se ria ou chorava, expliquei que a Receita já sabe tudo que ela tem e ganha e que, mesmo com a revolução comunista, nada vai mudar por causa da pobre moça do censo. Ela se acalmou e agora não sente culpa, só medo da revolução.

Ê, Brasilzão!



Escrito por Kiko Rieser às 21h18
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   "Mostra" de dramaturgia

Na última semana de setembro, vai acontecer uma semana com leituras dramáticas de algumas peças minhas, no Teatro da ECA-USP. Serão três dias, mas ainda não posso precisar as datas. Assim que estiver tudo fechado, passo as informações aqui. Por ora, o certo é o seguinte:

 

Cavalo dado, direção de Kiko Rieser, com Antônio Januzelli (Janô), Luiz Amorim, Caio Paduan e Ighor Walace. 70 min.

 

Sinopse: Lucas está no cursinho e quer ser cineasta, mas tem dificuldade para se enturmar com seus colegas e para lidar com o poder, especialmente o representado pela figura de seu pai. Uma série de acontecimentos leva a uma inversão na situação de sua casa, colocando em cheque suas convicções e atitudes.

 

Trecho: “Uma hora a natureza acerta as contas. As coisas têm que seguir seu curso, não adianta tentar manipular. Você tem que cuidar mais de você. Os outros tomam conta de si mesmos e o mundo também se encarrega de acertar tudo.”

 

 

 

Assobio de vento pra seduzir os solitários, direção de Kiko Rieser, com Ivam Cabral, Marco Antônio Pâmio e Luiz Mário Vicente. 40 min.

 

Sinopse: Três quarentões se crêem incapazes de manter qualquer tipo de relação, pessoal ou profissional. Durante a espera por uma mulher enigmática, eles descobrem que suas peculiaridades são verdadeiramente aquilo que os mantêm unidos.

 

Trecho: “A noite pede quem saiba vê-la, quem tenha coragem pra enfrentá-la, quem tenha a capacidade de escrever um poema pra ela. A noite é de pessoas como nós, não dessa menina que não vê a beleza sonora de um Chuck Berry.”

 

 

 

Lixo e purpurina: uma biópsia da solidão, baseado em dois contos de Caio Fernando Abreu, direção de Chico Ribas, com David Kinski. 40 min.

 

Sinopse: Um homem viaja para Londres em 1971, fugindo da ditadura militar no Brasil. Lidando com a sensação de estrangeirismo em todos os sentidos e com a falta de dinheiro, ele lembra como forma de consolo tudo que deixou em sua pátria, passando, então, a se confrontar com a solidão, numa jornada em direção ao auto-conhecimento.

 

Trecho: “Hoje é dia de não tentar compreender absolutamente nada, não lançar âncoras para o futuro. Estamos encalhados sobre estas malas e tapetes com nossos vinte anos de amor desperdiçado, longe do país que não nos quis.”

 

 

 

Sem retorno, direção de Kiko Rieser, com Felipe Mitsuo e Bernardo Fonseca Machado. 10 min.

 

Sinopse: Um ex-casal gay se reencontra após um ano sem contato e começa a discutir o período que passaram juntos e a separação.

 

Trecho: “Às vezes, a gente tem que largar o que a gente ama. O desapego é uma forma de libertação.”

 

Obs.: As peças Lixo e purpurina e Sem retorno serão apresentadas no mesmo dia, uma imediatamente após a outra.



Escrito por Kiko Rieser às 15h16
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